sábado, 21 de novembro de 2009

Di Cavalcanti - O Pintor do Brasil

De todos os pintores modernistas do nosso país, acredito que possamos dizer que Di Cavalcanti foi o mais "brasileiro". Modernista por excelência mas figurativo acima de tudo, retratou como ninguém as coisas brasileiras, desde as comidas e iguarias às festas populares, principalmente o Carnaval, onde a gente do povo foi pintada com todos os traços e cores. Nas figuras humanas, tem na mulata, a mulher caracteristicamente brasileira, o principal motivo. A mulher mestiça, cheia de curvas sensuais, iluminada pelo sol quente da beira mar, talvez tenha sido a coisa que este carioca da gema, ou "perfeito carioca" como mesmo se entitulou, mais gostou de pintar.

Foi o idealizador da Semana de Arte Moderna de 1922, quando à época morava em São Paulo, onde frequentou o curso de Direito nas Arcadas do Largo São Francisco e trabalhava também como ilustrador. Foi também em São Paulo que realizou sua primeira individual em 1919.
Em 1923 foi para Paris, onde teve contato com a vanguarda artística mundial, travando conhecimento com vários artistas, principalmente Pablo Picasso. Retornando ao Brasil, trabalhando ora no Rio, ora em São Paulo como ilustrador, Di começou a se preocupar muito com os aspectos sociais de seu país, vindo a se filiar em função disso ao Partido Comunista, o que lhe rendeu a necessidade de viver escondido em Paquetá e depois em Mangaratiba devido à perseguição política, juntamente com sua esposa Noêmia Mourão, a qual tinha sido sua aluna. A vida política agitada, contudo, não o impedia de pintar e expor suas pinturas, tanto no Brasil como no exterior, além de continuar o trabalho de ilustrador e caricaturista.




Di Cavalcanti foi pintor, desenhista, ilustrador, gravador, escritor e no que tange a escultura, realizou jóias de uma beleza extraordinária. Participou de inúmeras exposições, no Brasil e no exterior, incluindo a Bienal de São Paulo e a Bienal de Veneza. Suas obras são disputadíssimas nos melhores leilões de arte do mundo e estão presentes em acervos dos mais importantes museus do Brasil e do exterior, além de seletas coleções particulares ao redor do planeta. São inúmeros os livros publicados a seu respeito o que faz de Di Cavalcanti um verdadeiro ícone da pintura nacional, que lhe valeu inclusive o justo título de "Patriarca da Pintura Moderna Brasileira".



É difícil imaginar o que seria da pintura moderna brasileira sem que Di Cavalcanti tivesse existido. A obra que criou é tão rica, vasta, variada e importante, que merece um sério esforço de registro e catalogação, o qual todo o mundo da arte espera com extrema ansiedade. Infelizmente, pelas elevadas cifras que seus quadros hoje alcançam, Di Cavalcanti deve ser um dos artistas mais falsificados no Brasil. Considero inclusive, que no caso de Di Cavalcanti, seria necessária uma séria iniciativa governamental, com a finalidade de catalogar e preservar o grande legado da obra deste grande artista. Afinal, Di Cavalcanti é uma questão de estado, pois Di Cavalcanti é Brasil.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Sotheby´s New York- Leilão de Arte Latinoamericana



Ocorreu ontem em Nova York, o leilão de Arte Latinoamericana da Sotheby's. Considerando as atuais circunstâncias, os resultados foram até satisfatórios. Destaque para a obra do brasileiro Sergio Camargo( reproduzida acima), "Relevos", de dimensões 170x115cm, que foi arrematada pelo valor de US$ 1.594.500, um verdadeiro recorde, principalmente se considerarmos a estimativa inicial de US$ 350.000 a US$ 450.000. Ela só foi superada no evento pela obra de Matta, Endless Nudes, capa do catálogo do leilão, que foi arrematada por US$ 2.490.500. Outras obras de brasileiros como "Raízes" de Frans Krajcberg e "Jogo da Velha" de Cildo Meireles também encontraram compradores pelos valores nada desprezíveis de US$ 146.500 e US$ 170.500 respectivamente, numa noite que movimentou um total de US$ 14.764.250 em vendas. A arte latinoamericana, principalmente a brasileira, agradece.

domingo, 8 de novembro de 2009

Fulvio Pennacchi - Pintor italiano, artista brasileiro

Quando Fúlvio Pennacchi aportou por terras brasileiras em 1929, há exatos 80 anos, encontrou o país imerso na grande crise mundial. No porto que chegara, talvez fosse ainda possível ver a queima do café, sinal do desespero que tomara conta de alguns. Para esse italiano nascido na Toscana em 1905, mais especificamente em Lucca, berço da civilização etrusca, não foi fácil se manter por aqui no começo, principalmente por ter sido a cidade de São Paulo, onde decidiu residir, uma das mais afetadas pela turbulência daquele momento. Mesmo tendo frequentado a Academia de Belas Artes de Lucca, onde aprendeu principalmente um desenho refinado, tinha que se contentar com simples e humildes trabalhos, geralmente de decoração, para que fosse possível comer e pagar o aluguel de um porão, onde morava.

Se integrando aos poucos à comunidade italiana paulistana, trabalhou no ateliê do escultor Galileo Emendabili e em 1935 participa de exposição no Palácio das Arcadas e no Salão Paulista de Belas Artes. As exposições foram a oportunidade para que o público e a crítica tivessem contato com o excelente trabalho artístico que Pennacchi realizava. Mesmo dentro da pintura figurativa, à qual não abandonou até o fim de sua vida, em contraposição às novas propostas que apareciam à época, ditas de vanguada, suas obras foram aceitas e admiradas com entusiasmo, dignas de opiniões muito favoráveis de críticos como Sérgio Milliet, que inclusive comprou uma das obras expostas. Pela mesma época, conhece Francisco Rebolo, com quem trava uma grande amizade, além de Aldo Bonadei, os quais juntamente com Alfredo Volpi, Mario Zanini e mais alguns formaram o famoso grupo Santa Helena, nome do Edifício que abrigava os ateliês daqueles pintores operários, de origem simples, mas muito identificados com a paisagem e com a realidade da população da São Paulo de então.






As figuras de camponeses, de gente simples em seu labor do dia a dia, além de cenas religiosas de poesia incomparável, passaram a ser as marcas registradas de Pennacchi. O desenho preciso e solto e o tratamento meticuloso dado à paleta, com a utilização de cores que remontam aos afrescos existentes em algumas cidades italianas, renderam ao artista reconhecimento e fama. As encomendas passaram a ser constantes e sua vida se transformou aos poucos. Foi professor do Colégio Dante Aleghieri e mesmo antes dos 40 anos já era considerado um mestre da pintura, o que lhe rendeu o convite para execução dos afrescos da Igreja N.Sra. da Paz em São Paulo.








As obras de Pennacchi passaram então a fazer parte de acervos de museus e de importantes coleções particulares. Executa inúmeros painéis para instituiçoes oficiais, estabelecimentos comerciais e residências particulares, principalmente na técnica do afresco, a qual desenvolveu com incomparável maestria. Participou de inúmeras exposições, individuais e coletivas, no Brasil e no extrerior, inclusive da I Bienal de São Paulo de 1951.

Casou-se posteriormente com uma das herdeiras da família Matarazzo, com quem teve oito filhos e uma vida financeira tranquila, quando não precisou mais vender seus quadros para subsistir. Veio a falecer em 1992, deixando um acervo enorme e um legado de amor ao ofício de pintor e à atividade de artísta múltiplo, uma vez que também gravou, esculpiu e realizou obras em cerâmica de um bom gosto inconfundível.

Sua obra hoje está sendo catalogada pelos filhos Valério e Giovanna, os quais darão sem dúvida o destaque que toda a vida de Fúlvio Pennacchi merece.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Saint Clair Cemin - Artista brasileiro internacional


Ao comentar a Bienal do Mercosul na última postagem, lembrei de Saint Clair Cemin, artista que foi homenageado na edição de 2003 deste evento, na qual havia exposto a escultura monumental de nome "Supercuia", reproduzida acima. Como bom gaúcho de Cruz Alta, não poderia deixar de retribuir a gentileza.

Saint Clair é hoje um dos nomes mais lembrados e comentados no eixo Nova York - Paris, quando o assunto é, principalmente, escultura contemporânea. Não que sua obra gráfica e desenhos não tenham importância, longe disso, mas é justamente na escultura onde Saint Clair vem se destacando cada vez mais, com suas obras frequentando acervos de grandes museus e importantes coleções particulares, além de monumentos em locais públicos. Navegando muitas vezes, como eu particularmente consigo definir, por um "surrealismo contemporâneo", Saint Clair lança mão de materiais diversos como mármore, metal, madeira, fibra de vidro e plástico para traduzir suas idéias e visão do mundo em esculturas e instalações que chamam a atenção não só pela técnica empregada mas como pela originalidade.

Desde os seus tempos de École de Beaux Arts de Paris, onde seus desenhos e esboços já demonstravam como uma bússola o caminho que iria seguir(vide acima um deles reproduzido), Saint Clair realiza uma obra consistente e coerente, que espelha aos poucos e cada vez mais, uma maturidade artística que justifica o seu já grande sucesso. É frequente a presença de suas obras em leilões importantes em Sotheby's e Christie's, apesar de que aqui dentro, em nosso país, pouca gente lembre dele, ou mesmo o conheça. Saint Clair foi um artista que também expôs na Galeria Projecta, no final dos anos 70 e início dos 80, antes de se mudar definitivamente para os EUA, onde reside atualmente e de onde parte para exposições e empreitadas de criação pelo mundo inteiro.

O artista participou de várias exposições individuais e coletivas, incluindo a Bienal de São Paulo, e suas obras, como já citado acima, já integram acervos de museus importantes como o Instituto Inhotim de Minas Gerais e os da relação abaixo, extraídos do site do próprio artista:

-Musee de la Chasse et de la Nature, Paris
-S.M.A.K., Stedelijk Museum voor Actuele Kunst,
-GentThe Rose Art Museum, Brandeis University, Waltham, MASS.
-Sydney and Walda Besthoff Sculpture Garden at NOMA, New Orleans
-Eli Broad Family Foundation, Los Angeles, California.
-Emily Fisher Landau Collection, Long Island City.
-Whitney Museum of American Art, New York.
-Grounds for Sculpture, Hamilton, New Jersey.
-Museum of Contemporary Art, Los Angeles, California.
-FNAC (Fonds National d'Art Contemporain), Paris, France.
-Museo de Arte Contemporaneo, Monterrey, Mexico.
-Rooseum, Stockholm, Sweden.
-Hakone Open-Air Museum, Japan.
-jBastads Kommun, Sweden.
-MEIAC - Museo Extremeno e Iberoamericano de Arte Contemporaneo, Badajoz, Spain.
Saint Clair Cemin deve ter seu nome anotado e guardado. Ainda vamos ouvir falar muito dele.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

7a. Bienal do Mercosul

Começou hoje em Porto Alegre e vai até o dia 29 de Novembro, a sétima edição da Bienal do Mercosul. Conforme a introdução existente no site do evento....:



"A 7ª Bienal do Mercosul começa em março de 2008, com o lançamento de um processo inédito para seleção do curador-geral. O concurso, aberto a profissionais de todo o mundo, recebeu 67 propostas para avaliação, vindas de candidatos de mais de 20 países. O método adotado marcou uma nova etapa evolutiva da Bienal do Mercosul, tornando mais dinâmica e transparente a escolha do curador.A proposta escolhida, assinada pelos curadores Victória Noorthoorn e Camilo Yáñez, atendeu às metas da Fundação Bienal do Mercosul:
• Foco na contribuição social, buscando reais benefícios para os seus públicos, parceiros e apoiadores;
• Contínua aproximação com a criação artística contemporânea e seu discurso crítico;
• Transparência na gestão e em todas as suas ações; • Prioridade de investimento em educação; e,
• Estabelecimento da Bienal como referência nos campos da arte, da educação e pesquisa nessas áreas.

Em linhas gerais, Noorthoorn e Yáñez propuseram um conceito de bienal que determina uma participação efetiva dos artistas que a compõem, valendo-se de sua energia criativa para refletir sobre o papel que representam. O projeto envolve os artistas na própria concepção da Bienal: considerados como atores sociais e constantes produtores de sentido crítico, os artistas serão responsáveis por conceituar formatos de exibição, o projeto pedagógico e as políticas editoriais do evento.A equipe curatorial da 7ª Bienal do Mercosul está integrada pelos seguintes curadores:
Curadores-gerais: Victoria Noorthoorn (Argentina) e Camilo Yáñez (Chile)
Curadora pedagógica: Marina De Caro (Argentina)
Curadores adjuntos: Roberto Jacoby (Argentina), Artur Lescher (Brasil), Mario Navarro (Chile) e Laura Lima (Brasil)
Co-curadora Radiovisual: Lenora de Barros (Brasil)
Curadores editoriais: Erick Beltrán (México) e Bernardo Ortiz (Colômbia)

A 7ª Bienal do Mercosul é uma plataforma aberta de comunicação sobre o estado das artes mais experimentais e críticas do continente, em diálogo com o mundo. Para a Fundação Bienal do Mercosul, esta Bienal vai promover ações pensadas para envolver o público em um processo contínuo de aproximação e diálogo, abrindo espaço para que as contribuições da Bienal à comunidade sejam positivas e crescentes a cada edição. Este contínuo projeto de renovação e ampliação se constitui num enorme investimento, cujos resultados não se restringem ao presente, mas serão percebidos também no futuro. "

Com aproximadamente 200 artistas, vale a pena uma ida a Porto Alegre e visitar a Bienal, cuja importância aumenta a cada edição, para se ater às tendências da arte brasileira e latinoamericana.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Valdir Sarubbi - Lembram dele?

Dos artistas que expuseram seus trabalhos na Projecta, galeria da qual meu falecido sogro era proprietário, Valdir Sarubbi foi um dos que mais me impressionou. A galeria abrigou duas individuais de Sarubbi em 1978 e 1982. A qualidade que empregava em seus trabalhos era tão grande e tão refinada, que lhe renderam inclusive em 1999/2000 um prêmio-bolsa pela Pollock-Krasner Fondation de Nova York, da qual recebeu rasgados elogios. Era apontado à época, como um dos grandes nomes da arte contemporânea brasileira. Infelizmente, por problemas de saúde, veio a falecer em São Paulo no ano 2000, quando seu poder de criação atingia o ápice. Das suas várias fases, reproduzimos abaixo um estudo em técnica mista da série "Este Rio é Minha Rua", na qual Sarubbi explora suas lembranças e conhecimentos da Amazônia, numa clara ação que clamava pela preservação do meio ambiente. É possível perceber nesse trabalho a grande qualidade do desenho e da execução como um todo. Um belo e raro exemplar.



Valdir Evandro Sarubbi de Medeiros nasceu em Bragança, estado do Pará, no dia 10 de Outubro, e estaria completando 70 anos. Foi pintor, desenhista, gravador e professor. Entre 1958 e 1962, cursa a Faculdade de Direito e entre 1969 e 1970, a Faculdade de Arquitetura, ambas em Belém (Pará). Em 1971, muda-se para São Paulo. Em 1986, desenvolve o Projeto Arte e Educação, como artista residente na Unicamp em Campinas (São Paulo). Em 1990, realiza a instalação do painel permanente denominado Meditação Labiríntica, na Estação Barra Funda do Metrô de São Paulo. Entre as exposições de que participa, destacam-se: XI e XII Bienal Internacional de São Paulo, 1971/1973; Salão Paulista de Arte Contemporânea, São Paulo, várias edições entre 1971 e 1975; Bienal Nacional, São Paulo, 1972/1974 (Prêmio Brasil Plástica, 1972); Panorama da Arte Atual Brasileira, no MAM/SP, São Paulo, várias edições entre 1974 e 1990; O Desenho como Instrumento, na Pinacoteca do Estado de São Paulo, 1979; Bienal Latino-Americana, Havana (Cuba), 1984; 4ª Bienal Nacional de Santos, 1993. Em 2006, a DAN Galeria realizou uma exposição de Sarubbi com obras realizadas de 1970 a 1990.

Vários museus e coleções particulares no Brasil e no exterior possuem obras de Sarubbi, artista cuja memória merece ser resgatada, o que com certeza ocorrerá. É uma mera questão de tempo.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Aldir Mendes de Souza - A geometria e a cor

Depois de Volpi e Arcângelo Ianelli, Aldir Mendes de Souza foi, sem dúvida, um dos maiores artistas coloristas do Brasil. Desde os primordios, quando iniciou a representação geometrizada dos campos e cafezais paulistas em contraste com a urbe, com a cidade impessoal e cinza, Aldir já mostrava uma paleta madura, em que as cores justapostas dialogavam pela geometria, estabelecendo uma arte algo dialética, onde a última palavra era do observador, que inevitavelmente acabava indo paisagem a dentro, dela usufruindo e com ela conversando. Seus campos arados e suas montanhas geometrizadas possuem aquela marca registrada do mestre, a assinatura indelevel de um autor inquieto, que ao longo de uma carreira de mais de 40 anos, interrompida pela doença em 2007, mostrou uma evolução constante no trabalho da forma e da cor, digna de comparação a Volpi e Ianelli.




Médico de profissão e artista por paixão, Aldir trouxe para as telas um sentimento de alegria constante, digno de quem sempre esteve de bem com a vida, mesmo nos últimos instantes, quando ela, a vida, se esvaía, consumida pela leucemia. Ele, médico, não curou a si mesmo, mas pintou a si de certa forma, executando as últimas telas de sua vida baseadas nos mielogramas de seus exames médicos ( exames de medula óssea).
Aldir participou de inúmeras exposições individuais e coletivas, entre elas da Bienal de São Paulo e Ibero Americana no México. Suas obras se encontram hoje em dia em vários museus e em importantes coleções particulares no Brasil e no exterior.


Foi também um pioneiro na denúncia pela arte da devastação do planeta e sua degeneração pela poluição. O avanço da cidade sobre o campo e a degradação da qualidade de vida do ser humano sempre foram possíveis de serem percebidas em muitas de suas composições. Aldir foi um artista com "A" maiúsculo, um colorista de primeira e um pintor como poucos. Acredito que num futuro não muito distante, a crítica e o público colocarão Aldir no merecido lugar, aquele reservado aos grandes mestres da forma e da cor, cujas obras exalam vida e cujas vidas exaltam, pela arte, o amor.