terça-feira, 13 de abril de 2010

Aldemir Martins - O artista, o desenho e a cor



Aldemir Martins foi provavelmente um dos artistas mais prolíficos e criativos que o Brasil já teve. Genuinamente brasileiro, nascido no Ceará de praias paradisíacas e sertões tórridos, trouxe desse contraste para as telas e os papéis, as cores e os traços precisos, com uma obra, em todo o seu conjunto, de encher os olhos. Nascido em Ingazeiras no interior cearense, a 8 de novembro de 1922, ano da tão famosa Semana de Arte Moderna, Aldemir veio ao mundo com o selo da genialidade e da sensibilidade à flor da pele. Deixando a terra natal em 1945, após atividade artística já intensa como pintor e ilustrador, chega ao Rio de Janeiro, onde expôs na Galeria Askanasi e no Salão Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro. No ano seguinte chega a São Paulo, terra que o adotou como filho dileto. Trabalhando muito, principalmente o desenho, e expondo constantemente, não demorou muito para que o reconhecimento viesse.

Em 1951, ganhou o prêmio de melhor desenhista na Bienal de São Paulo, obtendo a mesma premiação na Bienal de Veneza de 1956. Com premiações por toda parte e reconhecimento da crítica e do público, cresceu por demais o número das exposições e a demanda por obras de Aldemir, tanto no Brasil como no exterior. A obra reproduzida acima, Cavalo, pertence justamente a essa fase premiada do artista. É fácil perceber o estilo, a precisão de execução e a beleza obtida por traços a princípio simples, mas inegavelmente geniais.
Nos anos seguintes, principalmente nas décadas de 60, 70 e 80, foram inúmeras as exposições internacionais e obviamente o trabalho foi enorme. Aldemir desenhou, pintou, gravou, esculpiu e foi também um dos pioneiros no "merchadising", ou seja, na produção de obras especialmente feitas para itens de uso doméstico como toalhas de mesa, copos, pratos e utensílios, além de outros objetos. Seus traços limpos e precisos e suas cores vibrantes cheias de luz e vida, atraiam cada vez mais admiradores, tornado-o naquilo que podemos chamar de um "best seller".

Com o tempo, alguns temas foram se tornando mais recorrentes, principalmente em função do sucesso que faziam junto ao público. Seus cangaceiros, mulheres rendeiras, paisagens marinhas, naturezas mortas com frutas do cotidiano nordestino e bichos como peixes, aves e principalmente os gatos, ganhavam as paredes de colecionadores, as ilustrações de livros e também os acervos de museus. O gatinho abaixo, é um típico exemplo do colorido utilizado por Aldemir, mesmo pertencendo à sua última fase. Em suas obras, é sempre perceptível a utilização da veladura, da sobreposição de pigmentos, obtendo nuances, volumes e efeitos de grande beleza e harmonia.

Aldemir também foi muralista, e um bom exemplo é a imagem no topo desta postagem, que mostra o painel executado no Centro Cultural Dragão do Mar em Fortaleza, Ceará, cuja beleza é indiscutível. Difícil achar alguém que tenha representado de forma tão característica e autêntica a paisagem, a fauna, a flora e principalmente o povo nordestino, este povo alegre e acolhedor, que inspirou Aldemir Martins até os seus últimos dias de vida. A imagem abaixo é um esboço, um estudo rústico de painel executado pelo artista, talvez até mesmo para o painel descrito e mostrado acima. O leitor pode perceber que até no desenho mais simples a marca registrada do artista, o seu estilo, a sua linguagem estão presentes. A obra não precisaria nem estar assinada.


Aldemir Martins faleceu em fevereiro de 2006 e além de saudades deixou uma obra extensa e marcante, principalmente pelo carinho com que trabalhava na execução de um desenho estilizado e desinibido e na utilização de cores quentes e vibrantes, que traduziram em imagens de cangaceiros, rendeiras, frutas, flores e animais, o grande amor que ele, Aldemir, tinha pelo seu imenso Brasil. Graças ao esforço da família do artista, principalmente na pessoa do filho Pedro Martins, a obra de Aldemir vem sendo catalogada e acreditamos ser extremamente válida a iniciativa, pois dos pintores modernos brasileiros, a obra de Aldemir talvez seja uma das mais significativas e importantes. O cearense Aldemir Martins foi sem dúvida, um dos maiores artistas brasileiros.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Ermelindo Nardin - Um grande artista


Já há algum tempo que venho pensando e ensaiando uma postagem sobre este excelente artista chamado Ermelindo Nardin. Nascido em Piracicaba, interior de São Paulo em 1940, Nardin pode ser considerado, sem dúvida, um dos grandes nomes da arte contemporânea brasileira. Estudou na Escola de Belas Artes de São Paulo, no MAC USP e no Museu de Arte de São Paulo, o nosso MASP, onde tinha em Pietro Maria Bardi um amigo e admirador, sendo que inclusive lá expôs suas pinturas, hoje muito raras no mercado, em 1975 e 1983. Aliás, exposições é o que não faltam no extenso e rico currículo deste artista, que começou a mostrar seus trabalhos em 1968, e de lá até hoje, entre individuais e coletivas, entre Bienais e restrospectivas, já se foram mais de cem.



Dono de um desenho desinibido, solto e despojado, Nardin exprime com veemência em seus trabalhos, sua visão de um mundo em constante metamorfose. Suas pinturas, geralmente executadas em uma paleta baixa, apresentam contrastes de corpos rosa-alaranjados com suas sombras ocre-azuladas em posições que denotam movimentos inerentes à sensualidade do ser humano, mas retratados de forma um tanto "jornalística", ou seja, pinta o que vê em determinado momento, nua e cruamente.

Mas é também na gravura em técnicas diversas, que Ermelindo Nardin nos brinda com trabalhos de resultados surpreendentes. Algumas delas como a reproduzida acima, Paisagem 41, possuem uma execução tão refinada, que em função dos movimentos e contrastes alcançados, partes da imagem parecem que "saltam" do plano do papel, conferindo um efeito de tridimensionalidade fantástico, às vezes até algo holográfico. Da contemplação atenta e demorada de suas gravuras, o observador obtém um sentido de fruição de uma viagem fantástica, quase onírica. Resultado como esse, só é obtido por quem tem sensibilidade à flor da pele, técnica de mestre e labor de artesão. Tudo isso transborda no ofício de Nardin, em trabalhos maravilhosos e de elevado valor artístico. Não é à toa que seus trabalhos hoje habitam em boas e grandes coleções privadas e em alguns dos principais museus do Brasil e também no exterior. Ermelindo Nardin é um artista que merece toda a atenção de quem gosta e admira a boa arte.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Sophia Tassinari - Um tributo a esta grande artista

As novas gerações, principalmente dos recém chegados ao mercado de arte, desconhecem quase que por completo o nome de Sophia Tassinari. Infelizmente. Talvez esta seja uma das maiores injustiças que o mercado e o mundo da arte cometem, justamente a uma artista que possuía uma enorme sensibilidade, sem contar é claro, dos grandes conhecimentos que tinha da técnica pictórica, do desenho, da escultura e também da cerâmica.



Dona Sophia, como eu costumava chamá-la, foi aluna de Anita Malfatti e Mario de Andrade. Pertenceu ao Grupo Guanabara, do qual faziam parte Fukushima, Mabe, Ianelli e outros, com os quais percorria os arredores da cidade de São Paulo, pintando paisagens pitorescas das chacrinhas, das várzeas, rios e outros motivos que eram retratados com desenho preciso, paleta suave e equilibrada e em toques rápidos, para não se perder o efeito da luz no ambiente e traduzí-lo da forma mais fiel possível, como na paisagem acima, que está reproduzida em seu livro "Sophia Tassinari e Sua Arte", editado quando da exposição no MASP na dec. de 80. Aliás, Pietro Maria Bardi, além de ter feito a introdução do livro, era fã declarado de D. Sophia.
Com o tempo, a artista foi crescendo mais e mais em sua arte. Começou a pintar e desenhar a figura humana com mais frequência e suas paisagens ganham cores um pouco mais vivas com um desenho mais solto ou "mais livre das formas" como ela mesma gostava de dizer.
Fundou e comandou por muitos anos a Galeria Azulão em São Paulo, por onde passaram muitos dos grandes artistas brasileiros e que também ficou famosa pelas "Feirinhas de Natal" que promovia, onde se podia comprar obras de arte de uma infinidade de artistas a preços módicos. Com isso D. Sophia ajudou a promover muitos artistas que hoje despontam no cenário artístico brasileiro e que, com certeza, lhe são muito gratos.
Sophia foi escultora pois "gostava de sentir as formas" e também gravadora, ceramista e muralista, tendo também executado jóias em prata e pedras semi-preciosas do Brasil. Enfim, uma experiência artística muito rica, cujo legado ainda será resgatado e amplamente difundido para que, finalmente, Sophia Tassinari tenha o lugar que merece no cenário da arte brasileira.

domingo, 17 de janeiro de 2010

Lasar Segall - Gravura desaparecida



Na última sexta-feira, encontrei D. Ana. Ela é funcionária dos Correios aqui em Itapetininga e foi quem me comunicou o roubo do caminhão dos Correios, na região de Campinas, em Dezembro de 2007, no qual viajava uma gravura de Lasar Segall que pertencia ao nosso acervo, e que retornava de São Paulo onde havia mostrada. A carga inteira do caminhão desapareceu, numa ação dos bandidos que não durou mais que 40 minutos. Difícil saber o que esse pessoal pode ter feito com a obra, uma xilo de Segall pertencente ao famoso álbum Mangue, de 1943. A gravura havia passado por um processo de limpeza recente, e a documentação fotográfica está guardada para eventuais comparações, caso encontremos peças semelhantes em circulação pelo mercado.
Lasar Segall deixou uma extensa obra gravada, onde as xilogravuras tem papel de destaque. Esta peça que nos foi roubada, está inclusive reproduzida no Dicionário das Artes Plásticas no Brasil de Roberto Pontual. Uma perda e tanto.

sábado, 21 de novembro de 2009

Di Cavalcanti - O Pintor do Brasil

De todos os pintores modernistas do nosso país, acredito que possamos dizer que Di Cavalcanti foi o mais "brasileiro". Modernista por excelência mas figurativo acima de tudo, retratou como ninguém as coisas brasileiras, desde as comidas e iguarias às festas populares, principalmente o Carnaval, onde a gente do povo foi pintada com todos os traços e cores. Nas figuras humanas, tem na mulata, a mulher caracteristicamente brasileira, o principal motivo. A mulher mestiça, cheia de curvas sensuais, iluminada pelo sol quente da beira mar, talvez tenha sido a coisa que este carioca da gema, ou "perfeito carioca" como mesmo se entitulou, mais gostou de pintar.

Foi o idealizador da Semana de Arte Moderna de 1922, quando à época morava em São Paulo, onde frequentou o curso de Direito nas Arcadas do Largo São Francisco e trabalhava também como ilustrador. Foi também em São Paulo que realizou sua primeira individual em 1919.
Em 1923 foi para Paris, onde teve contato com a vanguarda artística mundial, travando conhecimento com vários artistas, principalmente Pablo Picasso. Retornando ao Brasil, trabalhando ora no Rio, ora em São Paulo como ilustrador, Di começou a se preocupar muito com os aspectos sociais de seu país, vindo a se filiar em função disso ao Partido Comunista, o que lhe rendeu a necessidade de viver escondido em Paquetá e depois em Mangaratiba devido à perseguição política, juntamente com sua esposa Noêmia Mourão, a qual tinha sido sua aluna. A vida política agitada, contudo, não o impedia de pintar e expor suas pinturas, tanto no Brasil como no exterior, além de continuar o trabalho de ilustrador e caricaturista.




Di Cavalcanti foi pintor, desenhista, ilustrador, gravador, escritor e no que tange a escultura, realizou jóias de uma beleza extraordinária. Participou de inúmeras exposições, no Brasil e no exterior, incluindo a Bienal de São Paulo e a Bienal de Veneza. Suas obras são disputadíssimas nos melhores leilões de arte do mundo e estão presentes em acervos dos mais importantes museus do Brasil e do exterior, além de seletas coleções particulares ao redor do planeta. São inúmeros os livros publicados a seu respeito o que faz de Di Cavalcanti um verdadeiro ícone da pintura nacional, que lhe valeu inclusive o justo título de "Patriarca da Pintura Moderna Brasileira".



É difícil imaginar o que seria da pintura moderna brasileira sem que Di Cavalcanti tivesse existido. A obra que criou é tão rica, vasta, variada e importante, que merece um sério esforço de registro e catalogação, o qual todo o mundo da arte espera com extrema ansiedade. Infelizmente, pelas elevadas cifras que seus quadros hoje alcançam, Di Cavalcanti deve ser um dos artistas mais falsificados no Brasil. Considero inclusive, que no caso de Di Cavalcanti, seria necessária uma séria iniciativa governamental, com a finalidade de catalogar e preservar o grande legado da obra deste grande artista. Afinal, Di Cavalcanti é uma questão de estado, pois Di Cavalcanti é Brasil.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Sotheby´s New York- Leilão de Arte Latinoamericana



Ocorreu ontem em Nova York, o leilão de Arte Latinoamericana da Sotheby's. Considerando as atuais circunstâncias, os resultados foram até satisfatórios. Destaque para a obra do brasileiro Sergio Camargo( reproduzida acima), "Relevos", de dimensões 170x115cm, que foi arrematada pelo valor de US$ 1.594.500, um verdadeiro recorde, principalmente se considerarmos a estimativa inicial de US$ 350.000 a US$ 450.000. Ela só foi superada no evento pela obra de Matta, Endless Nudes, capa do catálogo do leilão, que foi arrematada por US$ 2.490.500. Outras obras de brasileiros como "Raízes" de Frans Krajcberg e "Jogo da Velha" de Cildo Meireles também encontraram compradores pelos valores nada desprezíveis de US$ 146.500 e US$ 170.500 respectivamente, numa noite que movimentou um total de US$ 14.764.250 em vendas. A arte latinoamericana, principalmente a brasileira, agradece.

domingo, 8 de novembro de 2009

Fulvio Pennacchi - Pintor italiano, artista brasileiro

Quando Fúlvio Pennacchi aportou por terras brasileiras em 1929, há exatos 80 anos, encontrou o país imerso na grande crise mundial. No porto que chegara, talvez fosse ainda possível ver a queima do café, sinal do desespero que tomara conta de alguns. Para esse italiano nascido na Toscana em 1905, mais especificamente em Lucca, berço da civilização etrusca, não foi fácil se manter por aqui no começo, principalmente por ter sido a cidade de São Paulo, onde decidiu residir, uma das mais afetadas pela turbulência daquele momento. Mesmo tendo frequentado a Academia de Belas Artes de Lucca, onde aprendeu principalmente um desenho refinado, tinha que se contentar com simples e humildes trabalhos, geralmente de decoração, para que fosse possível comer e pagar o aluguel de um porão, onde morava.

Se integrando aos poucos à comunidade italiana paulistana, trabalhou no ateliê do escultor Galileo Emendabili e em 1935 participa de exposição no Palácio das Arcadas e no Salão Paulista de Belas Artes. As exposições foram a oportunidade para que o público e a crítica tivessem contato com o excelente trabalho artístico que Pennacchi realizava. Mesmo dentro da pintura figurativa, à qual não abandonou até o fim de sua vida, em contraposição às novas propostas que apareciam à época, ditas de vanguada, suas obras foram aceitas e admiradas com entusiasmo, dignas de opiniões muito favoráveis de críticos como Sérgio Milliet, que inclusive comprou uma das obras expostas. Pela mesma época, conhece Francisco Rebolo, com quem trava uma grande amizade, além de Aldo Bonadei, os quais juntamente com Alfredo Volpi, Mario Zanini e mais alguns formaram o famoso grupo Santa Helena, nome do Edifício que abrigava os ateliês daqueles pintores operários, de origem simples, mas muito identificados com a paisagem e com a realidade da população da São Paulo de então.






As figuras de camponeses, de gente simples em seu labor do dia a dia, além de cenas religiosas de poesia incomparável, passaram a ser as marcas registradas de Pennacchi. O desenho preciso e solto e o tratamento meticuloso dado à paleta, com a utilização de cores que remontam aos afrescos existentes em algumas cidades italianas, renderam ao artista reconhecimento e fama. As encomendas passaram a ser constantes e sua vida se transformou aos poucos. Foi professor do Colégio Dante Aleghieri e mesmo antes dos 40 anos já era considerado um mestre da pintura, o que lhe rendeu o convite para execução dos afrescos da Igreja N.Sra. da Paz em São Paulo.








As obras de Pennacchi passaram então a fazer parte de acervos de museus e de importantes coleções particulares. Executa inúmeros painéis para instituiçoes oficiais, estabelecimentos comerciais e residências particulares, principalmente na técnica do afresco, a qual desenvolveu com incomparável maestria. Participou de inúmeras exposições, individuais e coletivas, no Brasil e no extrerior, inclusive da I Bienal de São Paulo de 1951.

Casou-se posteriormente com uma das herdeiras da família Matarazzo, com quem teve oito filhos e uma vida financeira tranquila, quando não precisou mais vender seus quadros para subsistir. Veio a falecer em 1992, deixando um acervo enorme e um legado de amor ao ofício de pintor e à atividade de artísta múltiplo, uma vez que também gravou, esculpiu e realizou obras em cerâmica de um bom gosto inconfundível.

Sua obra hoje está sendo catalogada pelos filhos Valério e Giovanna, os quais darão sem dúvida o destaque que toda a vida de Fúlvio Pennacchi merece.