quarta-feira, 29 de abril de 2009

Pierre-Auguste Renoir - 90 Anos de sua morte

Neste ano de 2009, celebramos os 90 anos de falecimento de Pierre-Auguste Renoir, um dos principais pintores franceses de todos os tempos, responsável juntamente com Monet, Sisley, Pissarro e mais alguns, pelo movimento denominado Impressionismo, que floresceu na Europa em meados do sec. XIX.


Na foto, Renoir em 1904.
Renoir nasceu em Limoges, França, em 1841, e muito cedo, quando ainda era uma criança, apresentou grande aptidão artística. Com a mudança de seu pai para Paris, pode frequentar ateliês e também a Escola de Artes Decorativas. Começou pintando porcelanas, onde executava a princípio personagens do império e da realeza e depois flores. Pintou também leques, pois eram objetos de uso obrigatório das damas da época. Com isso, como diria François Fosca, um dos principais biógrafos de Renoir "pintou festas galantes, cenas campestres e temas mitológicos, onde os tons rosas e azuis predominavam, eram os motivos em voga, para os quais Renoir foi se inspirar em Watteau e Boucher. Foi assim que começou a conhecer e depois a amar e a estudar a pintura francesa do século XVIII, e até o fim da vida teve por ela grande predileção...." . Em meados da década de 1860, entrou para a Escola de Belas Artes de Paris e frequentou o ateliê de Charles Gleyre, onde veio a conhecer Monet, Sisley e Bazile, com os quais estabeleceu uma sólida amizade.

Renoir não suportou muito tempo a convivência com o velho mestre suiço e resolveu sair do ateliê de Gleyre. Juntamente com Monet, pegaram os cavaletes e foram pintar ao ar livre, como diria outro impressionista, Paul Cezanne, "sur le motif". Foi desse modo que Renoir e seus companheiros começaram a captar a luz plena das paisagens, em quadros que representavam um determinado instante da situação pintada, onde rios, matas e o céu ganhavam um colorido diferente, mais límpido e vivo. Mas longe de ter sido fácil serem entendidos. Com isso, Renoir não vendia muitos quadros e para se sustentar fazia retratos da burguesia da época. Muitas vezes teve que dar quadros em pagamento do aluguel, de comida e também dos materiais de pintura que utilizava. O retrato reproduzido abaixo, que mostra a Condessa de Pourtalès, pertencente ao acervo do MASP, é um bom exemplo dos retratos pintados por Renoir.
Na década de 1870, podemos dizer que Renoir, mesmo nos retratos, foi de um impressionismo puro, principalmente nas paisagens, executadas em pinceladas muito rápidas, geralmente carregadas de "impasto", o qual também ajudava no efeito visual da obra. O quadro abaixo, chamado " O esquife", de 1875, é um belíssimo exemplo da pintura de paisagem impressionista de Renoir.

Na década de 1880, começam as primeiras mudanças na obra de Renoir. Após uma viagem à Itália, o pintor volta para a França em plena crise. Após ter visto as obras dos grandes mestres renascentistas e do afrescos de Pompéia, Renoir chegou a declarar a alguns amigos que não sabia nem desenhar e nem pintar. Com isso, deu uma guinada drástica na sua forma de pintar, tentando se aproximar dos grandes mestres. Começou então aquela que alguns chamam de fase ácida, ou então período "ingresco", fazendo referência ao pintor Ingres, um dos mestres que Renoir também muito admirava. As figuras eram extremamente desenhadas e bem acabadas, os rostos eram perfeitamente delineados e as obras possuiam mais detalhes do que geralmente utilizava. Mais uma vez, choveram críticas pelo abandono da velha forma por aqueles que já começavam a gostar e se acostumar com o impressionismo. O quadro reproduzido abaixo, " As Grandes Banhistas", é o melhor exemplo dessa fase.


Após alguns anos, no final da década de 1880 e início da década de 1890, Renoir retorna ao estilo antigo mas desta vez um pouco suavizado. Impressionismo em alguns detalhes e melhor acabamento em outros. Nesta fase, Renoir pintou obras maravilhosas, onde prevalecem as suas famosas banhistas, cenas de jovens no campo com chapéus floridos, e paisagens executadas de uma forma mais suave, onde as pinceladas continuam sendo rápidas mas um pouco mais leves. Aparecem alguns verdes realizados de forma mais "esfumada", com toques de amarelo para a luz e de azul para indicar as partes sombreadas, tudo dentro de uma harmonia e um estilo inconfundível. A paisagem com ponte reproduzida abaixo, que pertence à Reunião dos Museus Franceses, é um exemplo desta pintura.


Em meados da década de 1890, Renoir começa a sentir os efeitos de uma doença que muito o abalou: a artrite reumática deformante. Sentia dores nas mãos e nas juntas, a ponto de quando, em função do incômodo que geravam, acordava durante a madrugada, pedia material de pintura e executava pequenas pinturas em madeira para suportar e tentar esquecer o mal que sofria. No Natal de 1898, foi acometido da sua mais forte crise de artrite, a ponto de não poder mexer as mãos e os braços. A partir deste momento, o estado de sua saúde só se agravou. Mas quem vê a pintura de Renoir, não consegue ver nela os efeitos de um homem doente e atormentado pela dor. Sempre pintou a alegria de viver. A estória de que ele amarrava os pincéis às mãos para pintar é pura fantasia. Sofria mas reclamava pouco, principalmente se tinha algum motivo para pintar.
Foi casado com Aline Charigot, que além de esposa lhe serviu de modelo, e com ela teve três filhos: Pierre, que foi ator famoso na França, Jean, que foi um dos mais renomados diretores de cinema do mundo e Claude, o mais novo, que se dedicou à cerâmica.
Pintou praticamente até o últimos dia de vida e faleceu em 3 de dezembro de 1919 em Cagnes sur Mer, para onde havia mudado em função do clima que lhe era mais favorável, deixando uma obra extensa e maravilhosa, estimada em mais de 6000 peças. Hoje sua catalogação é feita pelo Wildenstein Institute e pela Galeria Berheim-Jeune, sendo que François Daulte editou dois volumes do catálogo de figuras de Renoir. Em futuras postagens, comentaremos sobre outros importantes mestres impressionistas.

terça-feira, 28 de abril de 2009

Exposição "Dois Tempos" na AC Galeria de Arte

Acabo de receber o convite acima da Ana Claudia Roso, sobre a exposição " Dois Tempos". Uma proposta interessante onde cinco artistas contemporâneos da maior importância, estarão expondo lado a lado, obras das décadas de 60 e 70, em contraponto com a produção atual. São eles Claudio Tozzi, Gilberto Salvador, Luiz Paulo Baravelli, Marcelo Nitsche e Samuel Szpigel. Deles, apenas Szpigel não participou da mostra 15 Jovens Artistas do Brasil no MAB FAAP, a qual já comentei há uns tempos. Achei a proposta interessante pois são artistas em plena maturidade e já consagrados, e será sem dúvida agradável perceber as mudanças de execução, determinar fios condutores e analisar os caminhos percorridos ao longo de 40 anos de trabalho por todos eles. Considero uma mostra imperdível para todos aqueles que gostam da nossa arte contemporânea. Vale a pena conferir na AC Galeria de Arte, de 7 de Maio a 10 de Junho, à Rua José Maria Lisboa, 1008, sobreloja, em São Paulo. Mais informações pelo site da galeria www.acgaleria.com . Bom divertimento!

Tadashi Kaminagai - Um grande artista

Tadashi Kaminagai, nasceu em Hiroshima no Japão em 1899. Decidiu-se na verdade pela vida artística apenas aos vinte e sete anos. Antes disso, desde muito jovem, trabalhou na Indonésia como plantador de arroz e milho, apanhador de coco e extrator de borracha.
Já na mais tenra idade fora atraído pela pintura e com o firme propósito de ser artista, rumou para Paris, centro artístico mundial da época. Lá, com a ajuda de Foujita, seu compatriota, sobreviveu como mestre moldureiro, trabalhando para artistas da envergadura de Henri Matisse, George Braque, Marc Chagall, Derain e Dufy, que sem dúvida lhe serviram de escola, e das melhores. Com a Segunda Guerra Mundial, é obrigado, assim como outros artistas, a sair da França, chegando dessa forma ao Brasil em 1940. Aqui, expôs em 1941 no Salão Nacional de Belas Artes e individualmente em São Paulo. Trabalhou no Rio de Janeiro, onde além de pintar exercia o ofício de mestre moldureiro, o que lhe permitiu o contato com uma série de artistas, entre os quais Portinari, de quem arrancaria rasgados elogios.

Participou das duas primeiras Bienais de São Paulo ( 1951 e 1953) e do Salão Nacional de Arte Moderna em 1952. Residiu no Brasil até 1954 quando foi para o Japão e de lá para Paris, onde se fixou definitivamente, até sua morte em 1982.

Dono de um desenho refinado e de uma técnica perfeita, com pinceladas precisas, marcadas por um "impasto" generoso, Kaminagai registrou principalmente paisagens, francesas e brasileiras em sua maioria, que retratam de um modo único e de estilo inconfundível os lugares por onde passou. Pintou também nus, retratos e naturezas mortas, onde o vigor e a autenticidade do artista sempre se fizeram presentes. A paisagem com ponte da Bretanha reproduzida abaixo, possivelmente pintada um pouco antes da vinda para o Brasil, é um ótimo exemplar da pintura cheia de vida de Kaminagai.


No Brasil, Kaminagai viajou muito e registrou magníficas paisagens na Bahia, Belém do Pará e em São Luís do Maranhão. Pintou também em São Paulo, Lins e Mogi das Cruzes, além é claro do Rio de Janeiro, onde residiu por um bom tempo. A marinha reproduzida abaixo, pintada em São Luís do Maranhão, é um exemplo da "pintura brasileira" de Kaminagai, que antes de tudo, é reconhecidamente um pintor pertencente à Escola de Paris. Alguns críticos inclusive, chegaram a fazer paralelo de sua pintura com a de Vlaminck.


Tadashi Kaminagai é citado no Benezit, o maior dicionário de artes do mundo, editado na França, e participou durante muitos anos do Salão de Outono de Paris. Sem dúvida alguma, ainda ouviremos falar muito de Kaminagai, um artista que o mundo das artes está redescobrindo.

domingo, 26 de abril de 2009

Soraia Cals e Evandro Carneiro - O dia do leilão está chegando

Gostaria de salientar aos meus leitores, que no próximo dia 28 de abril de 2009 começa o tão esperado leilão de Soraia Cals e Evandro Carneiro. Serão três noites, terminando no dia 30, quando serão colocados à venda nada menos que 461 lotes, de uma seleção de altíssima qualidade, reproduzidos em um catálogo finíssimo, com texto de Frederico Morais. O acervo à venda é quase que um perfeito corte horizontal na produção artística brasileira de todos os tempos. Temos mestres acadêmicos do século XIX como Henrique Bernardelli e Décio Villares, modernos como Guignard, Ismael Nery, Tarsila, Rego Monteiro, Lasar Segall, Antonio Gomide e Di Cavalcanti e ainda concretos, neo-concretos, abstratos e contemporâneos, com nomes da envergadura de Antonio Bandeira, Ivan Serpa, Tomie Ohtake, Beatriz Milazes e muitos mais. As estimativas vão de R$ 560,00 para uma xilogravura de Manuel Messias dos Santos a R$ 800.000,00 para o Portinari "Família", já mostrado em postagem anterior. O Di Cavalcanti reproduzido abaixo, "Mulher", da década de 40, é uma das estrelas do leilão e possui estimativa de R$ 220.000,00. Uma belíssima obra.

Soraia e Evandro também levarão a pregão obras de ótimos artistas ingênuos e naifs como Rosina Becker do Valle, Heitor dos Prazeres, Poteiro e mais alguns. Contará também com obras de alguns artistas estrangeiros como Pablo Picasso e Mane-Katz, este último, artista nascido na Ucrânia pertencente à Escola de Paris, cuja obra reproduzida abaixo "Estudante Religioso", irá a pregão com estimativa de R$ 22.000,00.

Sem dúvida será um belíssimo leilão, que só pela seleção já é um sucesso. Vale a pena acompanhar e participar, pois existem oportunidades raras ( como por exemplo algumas xilos de Oswaldo Goeldi) que podem incrementar em qualidade o acervo de qualquer colecionador. Aos que moram no Rio de Janeiro, será com certeza interessante ir ao Atlântica Business Center acompanhar pessoalmente e claro, fazer algum excelente negócio. Bom leilão a todos!

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Albert Marquet - Um mestre da cor

Albert Marquet, artista ainda pouco conhecido no Brasil, nasceu em Bordeaux, cidade portuária do sudoeste da França, centro da região de mesmo nome, famosa pelos excelentes vinhos que produz. E foi o porto de Bordeaux a inspiração inicial de Marquet para a iniciação nas artes, principalmente quando ainda menino, se retirava ou mesmo se escondia, em um misto de revolta e de vergonha devido a um defeito físico na perna e pela pouca visão que possuía, e lá passava o tempo desenhando o cais, as embarcações e os personagens portuários. Seu pai Joseph, era funcionário da ferrovia, sujeito algo rude e mal humorado mas sua mãe Margueritte, era delicada e sensível e logo percebeu o talento do filho, se empenhando ao máximo para que o desenvolvesse. Para tanto, vendeu um terreno que lhe pertencia e com os recursos mudou com o já rapaz para Paris, abrindo para si uma loja e matriculando Albert na École Nationale des Arts Décoratifs, onde este veio a conhecer Matisse, com quem travou uma amizade sólida que duraria pelo resto de sua vida.
Em seguida, de 1894 a 1898, Marquet juntamente com o amigo Matisse, conseguem ser acolhidos no atelier de Gustave Moreau, na École des Beaux-Arts. Em 1899 Marquet expõe pela primeira vez, no Salão da Sociedade Nacional de Belas Artes e em 1902 tem a primeira exposição coletiva, juntamente com Matisse, na galeria de Berthe Weill em Paris, que é considerada um das "grandes descobridoras" da arte moderna. Em 1905, novamente com Matisse e mais Manguin, Camoin, Flandrin, Rouault, Valtat, Vlaminck, Friez e Van Dongen, participa do fatídico Salão de Outono, o qual pela crítica de Louis Vauxcelles lhe rende, bem como a seus companheiros, o apelido de "fauves"( selvagens, feras), numa clara alusão ao escândalo que suas obras representaram. A pintura reproduzida abaixo, "Vista de Agay, as rochas vermelhas", foi uma das obras expostas na ocasião.


Marquet viajou bastante. Pintou belas paisagens, portos e marinhas por quase toda a França, principalmente as vistas do Sena em Paris, e também na Inglaterra, Itália, Alemanha, União Soviética, Argélia, Noruega e até em Estocolmo na Suécia. Casou-se em 1923 com Marcellle Martinet, a quem conheceu em uma de suas idas à Argélia, para fugir do frio do inverno de Paris, que lhe custava resfriados intermináveis.
De sua fase "fauve", os nus que pintou de Yvonne, sua modelo predileta à época, são de uma força e de uma graça sensual maravilhosa, sendo que alguns deles, como " Nu no sofá vermelho" de 1913, reproduzido abaixo, nos fazem lembrar algumas obras semelhantes do companheiro Henri Matisse.

Albert Marquet foi também desenhista, escultor e gravador, e veio a falecer em 14 de junho de 1947, vítima de câncer, e seu corpo está sepultado no cemitério de La Frette, segundo Michèle Paret, uma de suas biógrafas, "num local escolhido por Marcelle sua esposa, no topo de uma colina dominando o Sena e as paisagens que ele tanto amou."

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Henri Matisse - Um dos mestres do "Fauve"

Em uma das postagens anteriores, comentei sobre as obras em leilão de Henri Matisse e Albert Marquet, dois dos representantes do grupo "Fauves", movimento cujo nome foi adotado a partir dos comentários feitos pelo crítico de arte francês Louis Vauxcelles, ao definir Matisse e seus companheiros pelas obras expostas no Salão de Outono de 1905. Claro que na verdade, o crítico ressaltava o escândalo que tais pinturas representavam.

Henri Matisse passou a ser a partir daquele momento, o lider do movimento "fauve" (selvagem, fera), que ainda reunia artistas como o já citado Marquet e também Manguin, Puy, Vlaminck, Derain, Friez, Van Donguen e Rouault.

Matisse nasceu em 31 de Dezembro de 1869 em Cateau Cambrésis, no norte da França, e tornou-se artista depois de ter cursado direito, para desgosto de seu pai, que o via como um homem de leis. Em Paris, frequentou a Academia Julian em 1891, onde estudou com Bouguereau. Em seguida, frequentou o atelier de Gustave Moreau na Escola de Belas Artes de Paris, onde encontra Rouault, Manguin e Camoin. Em seguida, conhece Rodin e Pissarro e se apaixona pela pintura impressionista. Logo em seguida, em contato com a obra de Signac, passa por um breve período pela pintura divisionista, mas com um traço pessoal onde as pinceladas eram retangulares e mais largas, com justaposição de cores puras complementares. A passagem para o estilo dos "fauves" foi uma mera evolução neste processo. Um colorido intenso unido a um domínio completo do desenho. O resultado foram obras de uma beleza extraordinária, sejam nas paisagens, nas naturezas mortas, nos retratos e principalmente nos nus femininos, onde toda uma sensualidade bem comportada exala das telas. O quadro reproduzido abaixo, Odalisca com faixa verde, pertencente ao Museu de Arte de Baltimore, é um exemplo claro dessa fase.


Matisse foi também escultor, desenhista, gravurista, ceramista e muralista, tendo inclusive desenvolvido toda a decoração, incluindo o crucifixo do altar e os paramentos da Capela do Rosario de Vence. Faleceu no dia 3 de Novembro de 1954 em Nice. Sem dúvida um mestre, um artista completo, e os preços alcançados recentemente por suas obras demonstram isso.

Para quem gosta do pintor e quer ter um pouco mais de intimidade com sua obra, ocorrerá de 13 de Setembro a 15 de Novembro de 2009, como parte das celebrações do Ano da França no Brasil, a exposição "Matisse Hoje", na Pinacoteca do Estado de São Paulo, com mais de 40 obras, muitas delas trazidas da França, que com certeza será imperdível.

Numa próxima postagem, comentaremos algo sobre Albert Marquet, outro grande pintor do movimento "fauve" francês. À bientôt!

terça-feira, 14 de abril de 2009

Por que Picasso é "Picasso"?

Todas as vezes que publico ou comento algo sobre Pablo Picasso, sou sempre questionado a respeito da extrema valorização das obras do mais famoso pintor espanhol e quiça, do mundo. Talvez, se considerarmos que o preço de um bem está diretamente ligado à oferta e procura, a enorme fama já justifica boa parte das altas cifras alcançadas por seus quadros. Mas e esta fama, se justifica? Bem, falar de Picasso não é tão simples assim e não seria numa simples postagem que conseguiríamos esgotar o assunto. De qualquer maneira, poderemos quem sabe, fazer algumas considerações que permitam ao leitor pensar, considerar, pesquisar e acumular algum conhecimento sobre este artista, que se tornou o maior ícone das artes plásticas mundial do século XX, e que pelo jeito, mesmo tendo morrido em 1973, continua assombrando muita gente.


Pablo Ruiz Picasso, nasceu em Málaga, Espanha, em 1881, e seu talento artístico aflorou desde a mais tenra idade. Tendo chegado a Paris no final do sec.XIX, sua genialidade foi logo descoberta por marchands como Ambroise Vollard e principalmente Daniel Kahnweiler, o que por si já poderia explicar parte de seu grande sucesso. A verdade é que Picasso produziu intensamente por praticamente oito décadas, com uma criatividade à flor da pele e sendo o nome de vanguarda que participou da introdução de novas linguagens plásticas no começo do sec.XX, como o cubismo, o expressionismo e o surrealismo, trabalhando de maneira única nos mais variados suportes e técnicas, superando sempre as expectativas do mercado e da crítica, com um temperamento forte, carregando contrastes que levavam as pessoas a admirá-lo e a odiá-lo com a mesma intensidade. Que pudessem lá dizer suas várias mulheres, muitas das quais levou da paixão à quase loucura. Talvez tudo isso devido a um gênio indomável e insaciável, o qual ele mesmo Picasso, não conseguia explicar. Ele possuiu todas as características de um artista genial: uma criatividade aparentemente inesgotável, uma habilidade e domínio da técnica do desenho e da pintura inerente aos grandes mestres e um enorme fôlego e disponibilidade para o trabalho.

Da minha parte, costumo analisar a obra de um artista pela estrutura do seu trabalho. O resultado do estudo da obra de Picasso é simplesmente fantástico, principalmente se nos atermos aos seus mais de cento e setenta cadernos de desenhos e anotações. Desde o final do sec.XIX que Picasso estudava criteriosamente suas obras, a custa de muitos esboços e desenhos preliminares, que mostram que o artista dominava por completo todo o processo produtivo. Nos seus cadernos de desenhos caminham juntos habilidade, sensibilidade e criatividade, sendo eles na verdade o verdadeiro Picasso. Ele mesmo dizia que sua pintura era mais forte do que ele, o pintor, sendo que muitas vezes, segundo suas palavras, colocava sobre a tela o que ela, a pintura, desejava.

Picasso desenhou, pintou, gravou, esculpiu e executou cerâmicas das mais variadas formas. Sua obra é imensa e ainda parece inesgotável. A cada vez que a estudamos, algo novo aparece, um novo detalhe, um novo relacionamento, uma nova técnica ou mesmo forma de ver o mundo. Quando falamos em Picasso, parece que a vida dele continua.

Se analisarmos, por exemplo, o quadro acima, Família de Saltimbancos, executado em 1905, em pleno período rosa, transição entre a primeira fase do pintor, a fase de juventude também denominada fase azul e a fase cubista/abstrata, percebemos o nível de elaboração que Picasso buscou. Estudos de raios-X realizados na década de 80, mostraram que este quadro passou por três fases de execução distintas, até que o artista chegasse naquilo que considerou o ideal. Foram inúmeros os desenhos e esboços para este quadro, sendo que até gravuras em ponta seca com as posições dos personagens foram realizadas. É uma obra de grandes dimensões e que deve ter custado muito caro a Picasso realizá-la, mesmo no período da vida em que passou por grandes dificuldades financeiras. Mas o gênio e o seu temperamento inquieto, não permitiram que ele sossegasse enquanto não atingisse o ideal por ele, de alguma forma, imaginado. Perceba que os personagens não se entreolham, parecem que estão isolados no mundo. Talvez fosse como ele Picasso, se sentia na época.
Já na obra acima, Les Demoiselles d'Avignon, de 1907, o seu caderno de desenho de no. 42, mostra que Picasso estudou não só a estrutura da obra mas também cada personagem detalhadamente e sem dúvida à exaustão, se é que ele se cansava do que fazia. Ele sabia e sentia que pela vanguarda que a obra representaria, algo geométrica, algo já cubista, e sem dúvida exótica, deveria realizá-la com o máximo de esmero. Essa talvez seja a obra de Picasso mais conhecida no mundo, ao lado obviamente de Guernica.

Por último, acho que vale a pena comentar sobre a obra acima, O Rapto das Sabinas, a qual Picasso executou mediante um convite do pintor Edouard Pignon, para participar do Salão de Maio de Paris de 1963. Inspirado nas obras de Poussin e David, Picasso realizou inúmeros desenhos, esboços, telas preliminares, estudos e mais estudos para que conseguisse a síntese do que imaginava e sentia: completo horror e aversão à guerra e a quaisquer outras formas de violência contra a humanidade que tanto o deprimiram e aborreceram ao longo de sua vida. Abaixo, vemos a versão imediatamente anterior ao quadro final, que nos permite perceber um pouco a evolução do trabalho, com vistas a obter aquilo que ele considerava o ideal.



Como havia dito antes, estas poucas linhas servem apenas para que o leitor pense, reflita e busque novas informações sobre Picasso, de forma a obter um juízo sobre sua obra, sua genialidade e seu legado. Ele influenciou toda uma geração de artistas ao redor do mundo, entre suas várias formas de expressão criou um estilo inconfundível e uma obra tão vasta cujo estudo ainda está longe de chegar ao fim. Difícil é também encontrar alguém que não gostaria de ter uma obra sua, mesmo a mais simples que fosse, pendurada em sua parede. Por mais incrível que possa parecer, Picasso ainda vive.