sexta-feira, 8 de abril de 2016

Modigliani, Panama Papers e o mercado de arte internacional



O Modigliani acima, Homem com Bengala, tem sido motivo de uma luta judicial entre Philippe Maestracci, neto do falecido marchand parisiense Oscar Stettiner e a família Nahmad, dona da Nahmad Gallery de Nova York, comandada por Helly Mahmad, um homem relativamente jovem de feição fechada, que aparentemente nunca sorri e que vive sempre em apuros com a polícia e a justiça, cujo pai David Nahmad, controla o IAC - International Art Center, uma offshore que recentemente apareceu na divulgação dos Panama Papers, como sendo parte de um esquema internacional de sonegação fiscal e ocultação de patrimônio. Fontes do mercado, estimam que o acervo do IAC, estocado no freeport de Genebra - Suiça, beira os US$ 4 bi. Detalhes dessa história mostram inclusive um lado sombrio do mercado internacional de arte fina, onde não faltam manipulações de preços, simulação de leilões e outras práticas ilegais, aparentemente em acordos escusos com marchands e as grandes casas de leilões internacionais. A partir de agora, vamos ter que analisar muito bem as vendas de arte internacional, para sabermos se houve mesmo o arremate ou simplesmente uma jogada onde esteja envolvida uma offshore sediada numa ilha do Atlântico ou do Pacífico, talvez em cima de um coqueiro...Resta admirar o Modigliani.

segunda-feira, 28 de março de 2016

Luís Zilveti - pintor boliviano contemporâneo


Luís Zilveti - Cocina no.6 - óleo sobre tela

A obra reproduzida acima, de autoria de Luís Zilveti, é uma das pinturas do núcleo de arte latino-americana que pretendemos expor em nosso futuro museu.

Luís Zilveti nasceu em La Paz, Bolívia, em 1941 e desde a década de 1970 reside em Paris. Desenhista, pintor e muralista, possui um estilo figurativo inconfundível, com seus motivos imersos em brumas, nuvens e sombras. Estudou na Escola de Belas Artes de La Paz e depois arquitetura na Universidade San Andres. Em 1967 seguiu para Paris como bolsista na Cité Internationale des Arts em prêmio conferido pela Fundação Patiño, frequentando em seguida na mesma cidade o ateliê de gravura de Friedlander.

Possui inúmeros prêmios e suas obras e murais estão presentes em museus e coleções particulares na Europa e nas três Américas, possuindo inclusive verbete no importante dicionário de arte e artistas Benezit. É considerado um dos mais importantes artistas contemporâneos bolivianos da atualidade.

segunda-feira, 14 de março de 2016

Mercado de Arte Internacional em baixa?


Gallery assistants carry the painting 'Tete de femme' by Pablo Picasso during a media preview of Impressionist and Modern Art Evening Sale at Sotheby's in London, Britain January 28, 2016. The picture is estimated to sell for between 16 -20 million British pounds when it is auctioned on February 3 in London.REUTERS/Stefan WermuthEDITORIAL USE ONLY. NO RESALES. NO ARCHIVE ORG XMIT: SWT05
Picasso - Tête de femme - vendido por US 27 milhões  Fonte: Uol - Folha

Matéria de hoje da UOL - Folha comenta a queda dos negócios no mercado de luxo internacional, no qual se inclui o mercado de arte fina. O exemplo do quadro reproduzido acima de Picasso, Tête de Femme, que havia sido comprado por Jho Low em 2013 por US$ 40 milhões, alcançou recentemente a cifra de US$ 27 milhões, conferindo ao seu proprietário um sonoro prejuízo. Pergunto a mim mesmo: será que foi mesmo vendido? A questão é que o mercado de arte internacional também foi inflado nos últimos anos pela política de expansão monetária da União Européia, EUA e China. Grandes volumes de dinheiro a juros praticamente zerados, sem sombra de dúvida contribuíram para que um processo especulativo se estabelecesse no mercado de arte. O caso do Picasso descrito acima me parece um bom exemplo. Em minha opinião, comprador de Picasso que se preze, adquire a obra e a retém por um bom tempo, para maturação do investimento. Comprar em 2013 para vender em 2016 soa a mercado financeiro especulativo, aliás, uma das especialidades de Jho Low, ou então que ele esteja quebrado, o que não acredito.

Arte fina é e continuará sendo uma excelente opção como reserva de valor em momentos de crise como a que estamos vivendo. Claro que existem limites a serem avaliados quando da compra, principalmente se ela for com vistas a investimento. Deixar-se levar pela emoção em um leilão para adquirir uma peça de valor como um Picasso, só se justifica pela paixão pela arte e pelo prazer que a contemplação de obras primas nos transmitem, ou até mesmo pelo prazer de possuir algo único, desejado por muitos, como pura fruição. 

No Brasil, temos notícias de que o mercado está algo paralisado mas, ao contrário do noticiado lá fora, os preços das obras primas não caíram. Sentimos sim o achatamento de preços nas obras de nível intermediário, geralmente comercializados junto à classe média, esta sim extremamente atingida pela crise financeira. Outro fator foi o aparecimento de inúmeros leilões "on line", o que aumentou a oferta de obras com a consequente derrubada nos preços.

Jamais me arrependi de indicar o investimento em arte fina, principalmente em períodos de crise, quando temos excelentes oportunidades, como uma forma de multiplicação de patrimônio. É escolher bem e com bom critério, que o resultado será excepcional. Além é claro e principalmente, do deleite gerado pela contemplação de uma boa obra de arte. É experimentar para nunca mais parar de fazê-lo.

terça-feira, 8 de março de 2016

Gregory Fink, é uma honra!


Sem título, 90x150, técnica mista sobre painel - Fonte: site do artista

Hoje pela manhã, ao abrir meus emails, fui surpreendido pelo gentil convite feito pelo artista plástico Gregory Fink para adicioná-lo ao network do LinkedIn. Dentro de minha pequenez, me senti imensamente lisonjeado. Artista de renome, sua fama atravessou oceanos e suas obras já embelezam paredes de coleções particulares e museus pelo mundo, onde se ressaltam EUA, Inglaterra, França e Itália.

Sua pintura, em minha opinião, se caracteriza de maneira geral por um figurativismo lírico, cheio de gestualidade, no qual percebemos um "que" de Modigliani aliado a um desenho de expressão de Segall dos primeiros anos com um sotaque de Inos dos anos 60, realçado por um colorido ora orientalista pela diluição, ora "fauve" pela intensidade e pureza, conferindo às suas pinturas uma característica única, indelével e inconfundível, cujo fio condutor revela a sensibilidade e carinho com que o artista as executa. Sem sombra de dúvida ficará na história.

Gregory Fink, é uma honra!

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Jorge Vidgili - Lembram dele?

Dos artistas que passaram pela Projecta Galeria de Arte, que pertenceu ao meu falecido sogro José Luiz Pereira de Almeida, um dos que mais impressionou pela técnica e desenho refinados aplicados às suas obras foi Jorge Vidgili. Lá ele expôs duas vezes, uma individual e outra coletivamente, ambas na década de 70, quando a galeria começava. Tendo as marinhas como tema principal, usava da transparência com a qual mesclava bambuzais, troncos e folhagens ao mar da Praia Grande, que adotou como local para viver e criar.

Jorge Vidgili - Natureza morta com cerâmica - do acervo

As naturezas mortas também faziam parte de sua temática, onde abóboras e cocos recebiam tratamento hiper-realista, sempre entremeados a cerâmicas, molduras ou fundos algo enigmáticos, despertando no observador uma necessidade de análise além da contemplação, mas que sempre ficará aquém do verdadeiro pensamento do gênio criativo.

Jorge Vidgili- Sem título - do acervo

Não são raras também as composições de cunho surrealista, onde a técnica de execução esmerada com desenho preciso, nos transportam como mágica para a cena da tela, que possui um mundo à parte de texturas e movimentos, onde figuras, animais e objetos com seus volumes, luzes e sombras, já por si provocam o olhar e deixam transparecer uma inquietação e um questionamento até quase selvagem do artista com relação à existência e aos relacionamentos que dela emanam.

Há uma referência de um texto biográfico da Ranulpho Galeria de Arte, onde Vidgili expôs, que diz que o artista faleceu em 1999. Acredito que possa ser possível, uma vez que não encontramos no mercado qualquer obra posterior a essa data, Mas como já ocorreu com outros artistas que pesquisamos, ele pode estar ainda vivo e quieto em algum canto, talvez produzindo ou quem sabe meio brigado com o mundo. Tenho uma relação de artistas que adotaram esse comportamento e com isso não estranharia. De qualquer forma as obras de Jorge Vidgili são raras atualmente e começam a chamar a atenção quando aparecem pela enorme beleza e qualidade, num mundo onde a abstração talvez esteja dando sinais de saturação e cansaço. Dificilmente uma dessas pinturas passa um leilão sem vender. Vale a pena ficar atento.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Macaparana - Breve olhar sobre suas antigas pinturas


Macaparana - Oratório - OST. Do acervo

Quem hoje em dia se inicia no mercado de arte contemporânea brasileiro, vai inevitavelmente cruzar com obras de José de Souza Oliveira Filho, dito Macaparana, apelido este dado em função de sua cidade natal homônima, localizada no sertão de Pernambuco. A geometria por ele utilizada atualmente, talvez possa ser considerada como uma síntese de um trabalho que começou há quarenta anos, na década de 70, quando pintava paisagens surrealistas que remontavam ao sertão de sua terra natal, sucedidas pelos ex-votos, cuja madeira e respectiva textura aparentemente encantavam o artista, que as reproduzia em suas telas com enorme perícia, apesar da formação auto didata. A enorme qualidade do trabalho de Macaparana é sem dúvida de reconhecimento geral, traduzido por participações em inúmeras exposições, no Brasil e no exterior, onde se destaca a 21a. Bienal de São Paulo de 1991. Lembro que ele também expôs na Projecta Galeria de Arte, que pertencia a José Luiz Pereira de Almeida, meu falecido sogro, para quem Macaparana pintou o quadro do oratório acima.

Após breve passagem pelo Rio de Janeiro em 1972, Macaparana desembarca em São Paulo em 1973 e lá se estabelece. Em 1983 entra em contato com Willys de Castro, um dos principais artistas do neoconcretismo brasileiro, e a partir daí, a síntese geométrica que já se avistava, sofre uma mudança ainda mais radical e se transforma na obra que hoje conhecemos, composta por elementos geométricos reproduzidos em duas ou três dimensões. Com isso, ao que sabemos, a produção pictórica figurativa se encerrou, deixando para nossa análise uma obra de temática interessante e execução refinada, que chama a atenção do observador pela beleza e pelo tratamento delicado conferido a cada quadro, onde o equilíbrio de paisagens, ex-votos ou simples folhas de árvores elevadas à condição de objeto ou tema principal, nos transportam a um mundo à parte, cercado de horizontes longínquos verde-azulados, contrastados por cabeças ou peixes-paisagens surreais, espetados em galhos ou troncos secos que restaram sobre o solo do semi árido do sertão, cuja imagem jamais morrerá na mente do artista.

Macaparana - Ex-voto, fonte: site escritoriodearte.com.br

As obras reproduzidas acima reforçam de certa forma a descrição feita e mostram inclusive o tratamento da textura da madeira citado, onde veios e nós são tratados com elevado realce e as figuras e objetos estão dispostos com relativa simetria. No quadro mostrado mais acima, cujo motivo principal é um oratório, os objetos e figuras presentes na pintura estão representados alinhados na parte inferior e  compõem com a cruz no topo do oratório um triângulo imaginário que aponta para cima, para o céu, talvez como se quisesse dizer que é lá que estão todas as respostas. No outro quadro, no qual temos um ex-voto sobre um tronco, a forma obtida é de um monolito esculpido, um cilindro, que contrasta com as linhas do horizonte, com as quais forma uma cruz. O solo árido ao redor do tronco, cujo pé nele está enraizado, transmite um sentimento de solidão, de esquecimento e de certa impotência, como se o horizonte verde, belo e luminoso que o observador vislumbra, fosse impossível de se alcançar.

As pinturas dessa fase de Macaparana são realmente singulares e belas, e já estiveram inclusive em leilões internacionais como Christie's de Nova York, onde uma paisagem surrealista foi leiloada há alguns anos por valor em torno de US$ 10.000, se não me falha a memória. O artista está em plena produção da fase geométrica mas entendo que a valorização de suas paisagens e ex-votos é certa. O mais importante é nos deleitarmos com a beleza e toda a carga de reflexão que estas belas pinturas nos transmitem.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Carlos Bastos - Espetacular artista baiano


Carlos Bastos, Figuras, Nova York 1950. Do acervo

Carlos Frederico Bastos nasceu em Salvador, Bahia, em 1925 e pode ser considerado um dos principais e mais importantes artistas que a boa terra já produziu. Sua morte em 2004, data relativamente recente, fez com que se acendesse uma luz mais intensa sobre sua obra, que vai da pintura e ilustração aos murais e à cenografia. Iniciou seu aprendizado artístico na Escola de Belas Artes da Universidade da Bahia em 1944. Nesse mesmo ano já participa com Mario Cravo e Genaro de Carvalho da 1a. Mostra de Arte Moderna da Bahia. Em 1946 se muda para o Rio de Janeiro onde ingressa na Escola Nacional de Belas Artes. Estuda com Iberê Camargo, Santa Rosa, Carlos Oswald e Portinari. Em 1947 faz estudos em Nova York e posteriormente em 1949 vai para Paris onde estuda pintura mural e afresco na École Nationale Supérieure des Beaux-Arts e desenho na Académie de la Grande Chaumière, retornando ao Brasil em 1951. Percebe-se no breve relato acima a sólida formação artística conquistada.

Participou de inúmeras exposições individuais e coletivas, no Brasil e no exterior, onde se destacam a Bienal de São Paulo de 1953 e o Salão Nacional de Arte Moderna do Rio de Janeiro de 1955, possuindo obras em vários museus e coleções particulares.

Com uma temática diretamente ligada à sua terra natal, reproduziu seu povo, festas e tradições com um desenho de maturidade indiscutível e um colorido intenso, forte e quente como a Bahia e sua gente. Sem sombra de dúvida a redescoberta de Carlos Bastos está só começando.